Apresentação


PROCAD

O projeto em rede Diásporas Amazônicas: Língua, Cultura e Educação sob o Signo da Diversidade, vinculado ao Programa Nacional de Cooperação Acadêmica na Amazônia (PROCAD/AMAZÔNIA), Edital Nº 21/2018 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), tem como proponente o Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu Mestrado Acadêmico em Letras, da Universidade Federal de Rondônia (PPGML/UNIR), que tem como Coordenador Proponente o Professor Doutor João Carlos Gomes; o Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu Mestrado e Doutorado Acadêmico em Letras, da Universidade Federal do Pará (PPGL-UFPA), sob Coordenação do Professor Doutor Sidney da Silva Facundes na condição de associado; o Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu Mestrado e Doutorado em Estudos Literários, da Universidade do Estado de Mato Grosso (PPGEL/UNEMAT), Campus de Tangará da Serra, sob a Coordenação do Professor Doutor Aroldo José Abreu Pinto, na condição de associado. O presente projeto visa discutir os sentidos da noção de “diversidade” linguístico-cultural no contexto amazônico por meio da realização de estudos focados em diferentes populações que compõem o tecido social da região. As pesquisas organizam-se em três eixos:

I. Descrição de línguas presentes na Amazônia – incluindo-se variedades do português brasileiro, línguas indígenas, línguas de fronteira e imigração e línguas de sinais;

II. Análise de práticas e representações sociais dos grupos que utilizam essas línguas – ribeirinhos, quilombolas, feirantes, indígenas, surdos, entre outros povos amazônicos;

III. Análise de experiências de escolarização desses grupos ou de seus membros no contexto da educação básica.

Espera-se construir com esse projeto um painel que permita elucidar as experiências de grupos considerados minoritários ou marginais, compreendendo como eles se inserem nos processos de produção, circulação e valoração de saberes e práticas socioculturais. Do ponto de vista teórico, o projeto assume um caráter essencialmente interdisciplinar, concentrando-se na construção de interfaces entre quatro grandes eixos epistemológicos: a Linguística, os Estudos Literários, os Estudos Culturais e a Educação.                                                                                                                                                 

No projeto, elegemos a noção de diáspora para designar, de maneira comum, uma diversidade de situações linguístico-culturais que constituem o tecido social da região amazônica brasileira. O termo “diáspora” significa, a princípio, “dispersão de um povo ou de uma classe pelo mundo ao longo dos anos ou dos séculos”, com o que fazemos alusão à presença histórica, nessa região, de populações de origens diversas que se estabeleceram nesse território. Com isso, referimo-nos, primeiramente, à presença de populações de origem europeia que se assentaram ao longo do processo de colonização iniciado no século XVI e trouxeram consigo a língua portuguesa, contribuindo para o surgimento das variedades que caracterizam a vertente brasileira desse idioma. Referimo-nos, de igual modo, às populações de origem africana aportadas ao continente americano num processo de contato cultural e linguístico cuja herança se manifesta na presença de numerosas comunidades remanescentes de quilombos, nos movimentos sociais que buscam a recuperação e afirmação das raízes afro-brasileiras e, deforma mais difusa, na vasta contribuição das línguas africanas para a constituição dasvariedades brasileiras do português.               

Por fim, referimo-nos ao maior símbolo da diversidade da Amazônia: as sociedades e línguas indígenas que reside a maior diversidade linguística e cultural na região amazônica, visto que, enquanto todo o continente europeu fez-se a partir de um único grupo linguístico, o Indo-Europeu, na Amazônia há pelo menos quatro grupos linguísticos com profundidade temporal equivalente ao Indo-Europeu (Tupi, Macro-Jê, Carib e Aruák), cada um constituído de línguas de sociedades indígenas originárias do continente americano, com histórias também marcadas por numerosos movimentos migratórios e contatos interétnicos, dentre os quais aqueles travados com as populações europeias a partir do processo de colonização.

Esses três campos de pesquisas acadêmicas compõem o que se pode considerar o conjunto de heranças ancestrais das sociedades amazônicas contemporâneas. Sobre essa ancestralidade incidem, por sua vez, as inúmeras diásporas modernas que marcam a inserção da Amazônia nos processos produtivos da economia capitalista em escala mundial. Tem-se aí um conjunto de movimentos migratórios impulsionados pela exploração de recursos naturais da região (como a seringa, o ouro, o minério de ferro, o alumínio, entre outros); pelos grandes projetos estruturais empreendidos para viabilizar essas atividades, sobretudo no setor viário (com a construção de ferrovias e rodovias) e energético (com a construção de usinas hidrelétricas); pela exploração do território amazônico para atividades agropecuárias em larga escala; pela chegada de imigrantes e refugiados de outros países.

O signo que caracteriza o resultado dessas diásporas amazônicas é o da “diversidade linguística” inerente ao próprio português, estratificado pelo complexo e desigual ordenamento da sociedade amazônica – composta por populações que nem sempre compartilham elementos de uma herança comum e inscrevem-se na contemporaneidade em condições muito distintas: ribeirinhos, quilombolas, indígenas, migrantes, surdos, moradores das periferias urbanas formadas no século XX.

Neste cenário, a diversidade linguística é reconhecida como resultante também da presença de uma grande quantidade de línguas das sociedades amazônicas, que também enfrentam em condições distintas os processos socioculturais da modernidade – línguas indígenas em diferentes estados de preservação e vitalidade, deslocadas de suas localidades de origem para as mais remotas cabeceiras dos igarapés, margens de rodovias ou periferias
das cidades, línguas de fronteira, línguas de imigração, línguas utilizadas por comunidades de surdos com diferentes graus de contato e acesso à educação especializada (incluindo-se o ensino de LIBRAS).

Diversidade que se traduz nas diferentes formas como essas populações, suas línguas e seus saberes tradicionais foram historicamente incorporados aos processos produtivos e submetidos a um processo de valoração por meio da construção de representações sociais, imagens e estereótipos – na literatura, nas artes plásticas, na cultura de massa, no currículo e nas práticas escolares. Diversidade, enfim, que se traduz em contradição social, uma vez que essas populações são ao mesmo tempo alvo de exclusão, desvalorização e preconceito, e agentes produtores de formas de resistência, com diferentes graus de consciência e voluntariedade e distintas formas de materialidade.

Essas resistências são formuladas a partir de múltiplas possibilidades de representação cultural e artística, das quais destacamos as manifestações literárias acerca desses processos. Essas resistências são formuladas a partir de múltiplas possibilidades de representação cultural e artística, das quais destacamos as manifestações literárias acerca desses processos. Trata-se, por exemplo, de uma literatura de autoria indígena e/ou de uma literatura de autoria não- indígena, porém envolvida em protagonismos e problemáticas indígenas, que não apenas abarcam aspectos identitários e cosmogônicos, mas que, sobretudo, estão permeadas pelos conflitos históricos, pela experiência da exclusão e subalternização,e pela diáspora – está vinculada à expropriação de terras, ao desterramento, ao desaldeamento.

O presente projeto está fomentando uma rede de pesquisadores com o objetivo de articular pesquisas acadêmicas que têm como ponto de convergência o interesse pelas línguas e as culturas da Amazônia, com o objetivo de empreender uma discussão aprofundada do sentido que os pressupostos da “diversidade” assumem contexto da pluralidade dos povos amazônicos. Trata-se, também, de criar uma rede que fortaleça as práticas de pesquisa e de formação de novos pesquisadores na região, por meio da colaboração interinstitucional, do intercâmbio entre as equipes e do trabalho interdisciplinar. As tarefas da rede de pesquisa encontram-se organizadas em três eixos fundamentais: língua, cultura e educação:

1. O primeiro eixo (língua) consiste na realização de descrições linguísticas de línguas presentes na Amazônia brasileira, incluindo-se a descrição de variedades específicas do português amazônico, de línguas indígenas amazônicas e de línguas de sinais utilizadas por comunidades surdas na região amazônica.

2. O segundo eixo (literatura e cultura) consiste na coleta e análise de dados que registrem as práticas sociais, a história e o imaginário das populações amazônicas, sejam esses dados de natureza oral (narrativas tradicionais, histórias de vida, depoimentos etc.), escrita (obras literárias, textos
jornalísticos, documentos legais etc.) ou multimodal (filmes, documentários, performances, entre outros).

3. O terceiro eixo (educação) pressupõe a realização de estudos que documentem e analisem as práticas de escolarização ou, de forma mais ampla, as formas de produção e transmissão de conhecimentos junto a diferentes grupos que constituem a sociedade amazônica, incluindo-se escolas indígenas, escolas rurais, escolas de periferias urbanas, ou ainda, experiências de alunos indígenas, quilombolas e surdos.